Cinzas

        Entro em sua casa, a porta dá direto na cozinha. Tanto quanto tímido, tiro meu tênis e deixo ao lado da porta. Você vai direto ao banheiro, que fica no corredor entre a cozinha e o quarto. Observo a cozinha. Fogão, pia, armário, um radio com cd e vinil e K7 - e é novo. Há também a mesa, com outro armário na parede oposta a parede do fogão. Na parede do meio, uma grande janela de onde se vê o centro da cidade inteiro. Tudo muito bem organizado. Alguns CDs, nenhum vinil, livro ou K7. No armário, algumas bebidas quentes. Você sai do banheiro e vai direto para o quarto. Não te vejo de onde estou - apenas escuto o que fala, aliás, fala sem parar.

 

        Fala sobre como foi a noite, como foi o carnaval, sobre como anda sozinha, sobre como me deseja há tempos, sobre não ter beijado no carnaval inteiro e sobre já ser quarta feira de cinzas. Me faz notar que salvei seu carnaval. Não sei o motivo, mas me sinto bem com isso. Falando ainda, você volta à cozinha - que agora percebo também ser sala. Direto a geladeira, me entrega uma lata de cerveja, junto com um beijo delicioso e molhado. Vai ao armário e pega uma garrafa de whisky e serve uma dose generosa. Bebemos no mesmo copo.

Eu fico quieto. Ainda não acredito que estou aqui. Como é que um bêbado num boteco, no final do carnaval, vem parar na casa da mulher que é considerada uma das mais lindas e gostosas da cidade? Uma mulher que os homens pagam uma fortuna para terem durante alguns minutos. Uma mulher forte como você. Deve ser meu charme. Minha simpatia. Minha aparência. Ou desespero seu.

 

Você me faz parar de pensar, para de falar um pouco e me beija.

 

        Me beija apaixonadamente e eu correspondo. Levanta da cadeira e senta no meu colo, continua me beijando e me abraça. Eu tento avançar, minhas mãos invadem sua blusinha, uma acaricia suas costas, a outra permanece parada, você continua a me beijar te afasto um pouco, suficiente para minha mão buscar seus seios, você tira minha mão e a deixa na barriga. Você para de me beijar e bebe um gole da bebida, eu mato minha cerveja. Levanta e me traz outra. Dessa vez vejo dentro da geladeira. Há cerveja o suficiente. Senta novamente no meu colo e voltamos a conversar. Dessa vez falo mais. Falamos sobre tudo e nada. Tudo não importa. E o nada me faz te entender. E te entendendo, me apaixono. E me entrego à paixão. Mesmo que seja só por essa manhã. Mesmo que seja só por esse dia. E tenho consciência disso e você, você também sabe, melhor do que eu.

 

Continua? ...